Por Alex Ritman, da Variety
Liam e Noel Gallagher, para surpresa de provavelmente ninguém, não são do tipo que se emociona às lágrimas — nem mesmo ao se reconciliar depois de bem mais de uma década afastados.
É o que dizem Will Lovelace e Dylan Southern, diretores do próximo documentário do Disney+, “Oasis: Don’t Look Back in Anger”, em entrevista à Variety antes da estreia mundial do filme em Veneza.
No início de 2025, a dupla, responsável pelos documentários musicais “Shut Up and Play the Hits” e “Meet Me in the Bathroom”, recebeu a oportunidade única de registrar o reencontro que vinha sendo aguardado havia anos entre aqueles que são, possivelmente, os irmãos mais famosos — e também célebres por suas brigas — do rock and roll, no momento em que começaram os ensaios para o que se tornaria a turnê mundial recordista e extremamente aguardada do Oasis.
“Foi incrível assistir”, admite Lovelace. “Foi muito interessante ouvir a música ganhando forma, depois de não ouvi-los tocar como banda durante 15 ou 16 anos, mas também vê-los se reconectando. Foi uma visão privilegiada.”
Privilegiada ou não, porém, essa visão não veio exatamente de dentro do estúdio. Para registrar o monumental e tão aguardado reencontro dos Gallaghers, os cineastas decidiram que seria melhor simplesmente não estarem lá.
“Não queríamos que aquilo parecesse mediado. Não queríamos dar a sensação de que havia uma equipe de filmagem irritante correndo de um lado para o outro e atrapalhando”, diz Southern. “E sabíamos o quanto aquilo era delicado, porque era literalmente a primeira vez em 15 anos que eles ficavam juntos em uma sala por um período prolongado.”
Assim, depois de instalarem todo o equipamento de câmeras com bastante antecedência, os dois se retiraram para acompanhar tudo pelos monitores — infelizmente, dentro de uma cabana próxima, sem ar-condicionado e em plena onda de calor. Mas não houve fogos de artifício, como muitos previam. Tampouco abraços com os olhos marejados entre irmãos que haviam passado tantos anos separados.
“São os Gallaghers, não ‘Dawson’s Creek’. Eles não vão sentar e conversar sobre os sentimentos deles”, diz Southern, acrescentando que a maior surpresa foi perceber “o quanto eles estavam levando tudo aquilo a sério”, enquanto imediatamente começavam a aperfeiçoar versões de “Wonderwall”, “Champagne Supernova”, “Live Forever” e outras músicas icônicas do Oasis.
“Foi tudo muito profissional, muito focado no trabalho. Não tinha enrolação. Assim que Liam chegou, foi algo como: ‘Certo, vamos fazer isso?’. E eles simplesmente começaram a passar por todo o repertório. Mas é fascinante acompanhar esse processo e também as sutilezas das interações entre eles, porque não houve nenhum grande momento de reconciliação.”
Mas essa abordagem objetiva, sem alarde e totalmente voltada ao trabalho fazia parte daquilo que Lovelace descreve como “a tarefa séria de realizar o maior retorno do rock and roll que o mundo já viu”. E, quando os ensaios terminaram e a turnê do Oasis começou — primeiro no Reino Unido, antes de seguir para Irlanda, Canadá, Estados Unidos, Coreia, Japão, Austrália e América do Sul —, todo aquele trabalho minucioso e sem firulas para ajustar o show depois de tantos anos separados deu resultado.
“Quando você vê aquilo dia após dia após dia, percebe por que aqueles shows foram tão bons. Eles trabalharam para isso”, diz Lovelace.
Os shows — especialmente a primeira apresentação do retorno, em Cardiff — também ajudaram a esfriar qualquer atrito que ainda pudesse existir entre os Gallaghers. Muitos brincavam que eles já teriam terminado novamente muito antes de a turnê chegar ao fim.
“Havia uma tensão evidente”, afirma Lovelace. “E, da nossa perspectiva como observadores, ela não desapareceu até aquele primeiro momento em que a energia de expectativa do público encontrou o nervosismo da banda. Aquilo foi um verdadeiro momento de alquimia. Foi como se algo incrivelmente especial acontecesse quando aquelas pessoas, que esperaram 16 anos para que algo tão grandioso acontecesse, finalmente receberam aquilo que esperavam.”
E os irmãos realmente queriam que aquilo acontecesse, afirmam os diretores. As enormes quantias de dinheiro geradas pela turnê levaram muita gente a acreditar que tudo não passava de uma operação para fazer fortuna, mas eles garantem que o retorno rapidamente passou a significar muito mais para Liam e Noel.
Lovelace observa que, nos anos anteriores à reunião, quando havia especulações intermináveis sobre se aquilo algum dia poderia acontecer, Noel parecia ser o mais resistente, enquanto Liam demonstrava entusiasmo com a ideia.
“Mas acho que, quando eles entraram nisso, sentiram o peso da responsabilidade que tinham com os fãs, e rapidamente ficou claro que aquela seria uma história positiva”, diz ele. “Existe tensão. Existe um pouco daquela sensação de: ‘Será que isso pode dar errado?’. Mas sentimos que eles estavam extremamente focados e que não era simplesmente uma questão de aparecer, fazer os shows e pegar o dinheiro. Era algo como: ‘Esse precisa ser o melhor Oasis que podemos entregar aos fãs’. E havia realmente a sensação de que aquilo significava muito para eles.”
Também havia a percepção de que os fãs, independentemente de quanto tivessem pago pelos ingressos ou da distância que tivessem percorrido, estavam recebendo muito mais do que simplesmente um show. Depois de sair da abafada cabana usada durante os ensaios, Southern conta que operou uma câmera em todas as apresentações para “estar no meio de tudo”, junto às dezenas de milhares de pessoas cantando, e observar de perto suas reações.
“E havia essa sensação avassaladora de que o público precisava daquela catarse tanto quanto queria aquilo”, diz. “Acho que você poderia ser a pessoa mais cínica do mundo e, ainda assim, aquilo mexeria com você, porque simplesmente estar cercado por tantas pessoas — homens adultos chorando — fazia você sentir, especialmente nos tempos em que estamos vivendo, que aquilo era maior do que a banda. Parecia que as pessoas realmente precisavam de um momento como aquele.”
Southern não foi o único a filmar os fãs. Um time estrelado de diretores de fotografia foi convocado em cada país para registrar a turnê enquanto ela percorria o mundo.
“Em qualquer lugar do mundo aonde íamos, era a ligação mais fácil de fazer: ‘Quer vir filmar o Oasis na semana que vem?’”, diz Lovelace.
Entre os muitos que disseram sim estavam Haris Zambarloukos, colaborador frequente de Kenneth Branagh; Lol Crawley, vencedor do Oscar por seu trabalho em “The Brutalist”; e James Laxton, indicado ao Oscar por “Moonlight”.
“Não queríamos que aquilo parecesse uma gravação convencional de show”, diz Southern. “Por isso, demos a mesma orientação a todos os diretores de fotografia: simplesmente filme a sua experiência desse show. Então, se houver alguma coisa no público que seja mais interessante do que o que está acontecendo no palco, siga aquilo. Da mesma forma, com as câmeras no palco, não se tratava de conseguir uma ótima imagem do braço de uma guitarra. A questão era: qual é a história? O que está acontecendo entre Liam e Noel? Qual é a versão narrativa disso? E acho que o resultado são algumas imagens de show realmente, realmente imersivas.”
Com “Oasis: Don’t Look Back in Anger” chegando às telas Imax, os diretores esperam mergulhar novamente o público naquele glorioso verão de 2025, de chapéus bucket e “Champagne Supernova”.
“Queríamos que fosse o mais próximo possível da experiência de realmente estar lá”, diz Lovelace.
E, falando do famoso acessório mancuniano dos anos 1990 que, sem dúvida, virou o item de merchandising da vez durante a turnê do Oasis, Southern tem uma ideia capaz de superar até mesmo o extremamente popular balde de pipoca em formato de Cavalo de Troia lançado para “The Odyssey”.
“Acho que os cinemas estão realmente perdendo uma oportunidade se não tiverem chapéus bucket de pipoca.”




